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04 de julho de 2019

Entrevista do mês: Monique Rodrigues e Manuela Costa

AFROFUTURIZE-SE!!!! 

FGB conversa com dupla de profissionais das artes que integram o coletivo Minas da Baixada. Elas explicam como mulheres pretas e periféricas produzem cultura na região.  

 

“Coletivo feminista interseccional, formado por mulheres da Baixada Fluminense e aberto a mulheres que desejem atuar na luta feminista na região. Somos um coletivo autônomo e independente. Acreditamos que a luta feminista precisa levar em conta as questões de classe e raça. Estamos na Baixada Fluminense, somos mulheres de uma região historicamente relegada pelo poder público. Em consequência desse abandono, sofremos por conta de uma série de fatores como: a precariedade do transporte público e do setor de serviços, a falta de água e saneamento básico e a violência”.

 

Nenhuma frase poderia definir melhor o coletivo Minas da Baixada que surgiu há 3 anos em São João de Meriti. Tudo em que acreditam reflete uma urgência de diálogo e prática. Desde os eixos de atuação que evocam educação, cultura e políticas públicas, até seu público-alvo: mulheres que sonham com um mundo livre do machismo, do racismo, da lgbtfobia e do capitalismo. E pra salientar sua importância, militam na base, na perifa, vivenciando cotidianos que não estão nos livros de sociologia europeus.

 

Duas dessas manas já fazem suas histórias

 

Manuela Costa, 27 anos é estudante de design e fotógrafa. Em uma escola pública na Posse, bairro de Nova Iguaçu, ministrou aulas no “Tem Menina no Circuito”, projeto coordenado por professoras do Instituto de Física da UFRJ e que tem por objetivo incentivar meninas a gostar de ciências exatas e tecnologia. É bolsista ProUni, com 100% de gratuidade pela PUC do Rio de Janeiro. Mesmo assim, para bancar outras necessidades estudantis que a bolsa integral não consegue contemplar, é doceira nas horas vagas. Fundou uma micro empresa, a Chocolate-se, e os quitutes vão para eventos e festas. O Minas da Baixada entra em sua vida num momento de autoconhecimento. “Nós vivemos na nossa bolha e quando estamos em um ambiente mais elitista, percebemos mais o que é ser negro, periférico e mulher. Você já é excluída três vezes no mercado de trabalho” diz Manu, como é mais conhecida. Os frilas em fotografia e design foram surgindo para atender às necessidades de um grupo de amigas que participaram de uma oficina de formação para empreendedores. Elas tinham uma incubadora para negócios e precisavam fotografar os produtos de maneira mais profissional. E é onde o olhar sensível da fotógrafa ganha protagonismo.

 

Monique Rodrigues, tem 36 anos, formada em Cinema por uma faculdade privada. Adentrou a instituição em 2009, depois de frequentar alguns cursos livres de iniciação cinematográfica. Já no segundo período, estagiou no bairro do Flamengo, na zona sul carioca. Tem uma carreira bem regular passando por festivais ou mostras tais como o Festival do Rio, onde trabalhou na produção de duas edições. Na Caixa Cultural, ajudou na curadoria da mostra El Desejo, sobre a cinebiografia do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, além de atuar em festivais de animação universitários e no departamento de direção de arte onde era responsável por cenário e figurino em algumas películas. No terceiro período, dirige um documentário institucional pela faculdade chamado “Sobre O Tempo”, em que questiona os efeitos da aceleração do mesmo no cotidiano das pessoas. O filme contou com a participação do poeta Ferreira Gullar, de antropólogos e até de um físico. Ela diz não ter sofrido experiências explícitas de racismo na faculdade, mas afirma ter desenvolvido a percepção de ser a única mulher negra, da periferia de Nova Iguaçu, em sala de aula e nos grupos de amigos. “Mas ao trabalhar na Zona Sul do Rio essa percepção ficou impressa em algumas falas do tipo ´Nossa, você mora em Nova Iguaçu, como faz pra vir pra cá?`. Essa realidade fez com que eu estudasse por conta própria, tudo relacionado a negritude, conhecendo coletivos, pessoas, ativistas”, explica Monique. Em 2016, foi a um debate político na Praça XV em que estavam presentes a então vereadoras Marielle Franco e Talíria Petrone e lá conheceu a educadora Marta Batista que já pertencia ao coletivo. O ingresso foi imediato.

 

Entrevista a Fabio Leon

 

Como é produzir cultura na Baixada Fluminense? Quais os desafios que vocês encontram?

Monique: Pensando mais no cinema e no audiovisual em si, a maior dificuldade é a falta de infraestrutura para se fazer tudo, produzir, captar financiamento, logística. Não há um corpo técnico de profissionais pra você montar uma equipe. Além disso, temos muita dificuldade de locomoção, pois o transporte na Baixada é muito precário e não há uma cultura de consumo e disseminação dessas produções mais independentes. Embora haja um circuito de cineclubes na região, ele ainda é insuficiente para o tanto de produções que poderiam acontecer na Baixada. Faltam incentivos para que haja mais cineclubes.

 

Manu: O público também precisa ser pensado, pois não sabemos como esses cineclubes chegam até as pessoas. Elas estão sabendo o que está acontecendo? Pois a informação do que está acontecendo na cultura da Baixada, muitas vezes não chega a grande maioria da população e partir daí perde-se o interesse. As pessoas têm capacidade para produzir o que elas quiserem, mas às vezes não reconhecem essa capacidade, falta dar um start.

 

Como assim?  

Manu: Por exemplo, muitas pessoas gravam vídeos nos celulares, mas elas desconhecem que aquilo poderia ser uma produção audiovisual, participar de algum festival e não ficar restrito apenas ao cotidiano delas, sabe? A falta de capacitação e formação técnica, como a Monique disse, atrapalha bastante. Como eu venho mais desse mundo empreendedor, eu percebo que há uma incapacidade das pessoas de começarem a se gerir, de ter o próprio negócio, de criar uma profissão. No caso dos vídeos, elas têm que aprender que aquele “hobby” pode se transformar em algo produtivo e rentável também. Produzir é ótimo, participar de algum festival é muito bom, mas as pessoas precisam se sustentar também.   

 

Vocês participaram, em janeiro desse ano, do primeiro Curso de Comunicação Comunitária promovido pelo projeto Direito à Memória e Justiça Racial, do Fórum Grita Baixada. Como foi essa experiência? 

Manu: Foi a primeira vez em que comecei a dar aula especificamente sobre fotografia. Foi bem impactante (risos). Tinha muito interesse deles. “Eu quero entender como isso funciona”, porém de forma mais profissional. Ou então: “Nossa! O meu celular pode ser uma ferramenta para eu produzir audiovisual”. Teve um retorno muito bom por parte deles. Eu percebi, com o tempo, que numa sala com 30 pessoas podem ter dois tipos de grupo. Os receosos, que têm muita vergonha de perguntar sobre as partes mais técnicas e os mais descolados, que já possuem boa noção de como mexer no equipamento, um conhecimento mais avançado. Mas apesar disso, fiquei feliz de não ter havido muito embate. Fiz questão de conhecer alguns aplicativos que eles já usavam e acabamos passando o nosso conhecimento de forma mais simples e direta. Algumas perguntas me trouxeram mais dificuldades em reponder, mas eu era bem honesta e dizia que se eu não soubesse naquele momento, voltaria na próxima aula com as respostas e que iríamos descobrir juntos. Em relação aos mais calados, eu tentava fazer com que as aulas fossem mais dinâmicas. Já entregava a câmera para o primeiro que eu visse e dizia “toca na câmera, descobre aí o que ela tem pra te oferecer”, (risos).

 

Monique: Na minha turma, que era de produção de vídeo, eu identifiquei alunos com algum conhecimento técnico. A maior parte da turma já tinha produzido alguma coisa com celular. Descobri que existia um coletivo solidificado, chamado Flop, com certo material produzido. No meu entendimento, como era um curso que estava focando uma comunicação comunitária antirracista, percebi que eles tinham uma necessidade maior de conhecer conceitos. De como se estrutura um roteiro ou se elabora uma história que possa ser um reflexo da periferia onde moro, como faço pra construir um personagem que possa ter uma identificação antirracista. A demanda era mais nesse contexto. Discutimos muito sobre a questão da imagem do negro, de como se promove essa ruptura com a periferia. Debatemos muito sobre Afrofuturismo.

 

O que é Afrofuturismo?

Monique: É um conceito que está sendo moldado desde a década de 1960, mas no Brasil é muito recente ainda em função da reorganização da população negra. Tentamos reestruturar o passado escravocrata, centralizando na ancestralidade de pessoas que passaram 400 anos lutando por sua liberdade para nos reconstruirmos no presente. Descontruímos esse passado para construir um futuro diferente, livre dos estereótipos raciais, dentre eles a do negro subalterno, que apanhava. Isso foi muito levantado, inclusive, pelos próprios alunos do curso do Comunicação Comunitária. O legado cultural que vamos ter é mais positivo. Estamos aqui hoje porque somos frutos de uma luta histórica, porém inacabada. E o futuro que virá, será o que nós vamos decidir. Os vídeos que essa galera tá produzindo são os que vão ser consumidos pela próxima geração. O Afrofuturismo é a reconstrução da linha do tempo. Ele está sendo debatido pela educação, pela psicologia, pela matemática, por todas as esferas do conhecimento e onde há uma pessoa negra debatendo isso. Sobre a estética do Afrofuturismo, ela está mais concentrada em uma reafirmação de uma positividade sobre, por exemplo, o cabelo, que precisa ser natural e sem química. Ele é bonito do jeito que é. Ele tem uma textura específica e não vou escondê-lo.

 

Quer dizer, não se trata apenas de um conceito restrito a uma espécie de ficção científica com uma estética/narrativa essencialmente negra...

Monique: ...Mas tem uma galera da ficção científica que está debatendo o Afrofuturismo também! Por exemplo, a ficção científica construída para o cinema quase sempre descreve uma sociedade pertencendo a uma distopia (lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão). Mas o povo preto lida com essa distopia há mais de 400 anos, ou seja, desde a época da escravidão. Devemos pensar como essa leitura está sendo construída e pensada a partir do povo preto. Existe até uma escritora aqui de Nova Iguaçu chamada Lu Ain Zaila especializada em Afrofuturismo. E é a primeira da América Latina a escrever sobre isso. Ela esteve na Flip (Feira Literária de Paraty) ano passado, e ela foi um dos destaques.

 

Manu: E foi muito bom eles terem reconhecido isso no curso. A ancestralidade da fotografia através da pintura. É tudo uma reconexão com o nosso passado. O uso da maquiagem, da roupa. Uma verdadeira aceitação de si. Com o Afrofuturismo, acho que há uma preocupação maior sobre o que estamos produzindo. Até mesmo a ficção científica não reconhece o negro como liderança, como um ser digno de positividade. Nós negros produzimos tecnologias. Há em São Paulo o Museu Afro que apresentou, recentemente, uma exposição com diversas contribuições dos povos africanos para o conhecimento científico e tecnológico no Brasil (na exposição são exibidos instrumentos de trabalho, técnicas de edificações, além de mesas de lapidação de pedras preciosas, forjas de ferreiro, moendas de açúcar e de milho, prensas de folha de tabaco, moendas de milho, plainas de marceneiros,  artefatos que ilustram o ambiente dos séculos XVIII e XIX.). Estamos, até hoje, tentando buscar a nossa liberdade através de novas tecnologias.

 

Falando em novas tecnologias, vocês acreditam que estamos diante de um processo mais equilibrado em termos de democratização da informação ou há aquela percepção de que as mídias sociais criam suas bolhas políticas fechadas em suas próprias verdades?

Monique: Eu discordo. Eu acho que não tem uma democratização de pensamento, tampouco de acesso. As redes sociais geram um discurso muito inflamado, um pensamento já consolidado. As pessoas estão ali reafirmando o que já pensam e não existe um espaço para o diálogo e nem para uma democracia. Existe um problema enorme de que é preciso sair das redes e dialogar com a vida. Dentro delas, estamos dialogando apenas sobre fatos e acontecimentos passáveis. Porque a cada segundo, acontece uma coisa mais trágica ou alguma coisa mais bizarra na política partidária. Uma morte violenta que gera uma comoção on line, precisa ter essa mesma comoção vivenciada nas ruas. As pessoas deveriam estar debatendo no seu bairro, no seu meio social, na sua família pra entender essa conjuntura. Não acredito que todo mundo consiga verbalizar a sua voz ali naqueles espaços. Não se constrói nenhuma resolução séria utilizando redes sociais. Como determinadas questões vão ser solucionadas? Isso tem que ser através do diálogo.

 

Manu: Eu uso demais as redes sociais. As coisas das quais acredito, eu compartilho. Não sou de entrar em discussões, pois é desgastante você gerar embates em torno de algo que não vai gerar nada. Eu faço parte de um coletivo na faculdade chamado Bastardos da PUC, que é uma brincadeira com a célebre expressão “Filhos da PUC”, pois somos os bolsistas e tomamos aquele espaço de forma não tão aceitável assim (risos). As nossas discussões estão mais internas agora, mas teve uma criatura que resgatou uma carta que a Marielle Franco (vereadora do RJ assassinada em abril do ano passado), fez para o nosso coletivo, inclusive ela ajudou na fundação. Era uma homenagem por tudo o que ela fez e disse pela gente. Pra nós é de uma importância sem tamanho. A pessoa então entrou em uma discussão política desnecessária, que preferimos não rebater. Basicamente ele disse que deveríamos nos sentir satisfeitos pois a PUC teria “permitido” a entrada de mais de “trocentos” alunos cotistas nos últimos anos. Mas como eles se mantêm lá dentro? Com base em que tipo de saúde mental elas se defendem nesses ambientes? E essas coisas não são debatidas.

 

Hoje em dia não tem como se falar em produção cultural sem mencionar os editais de convocação. É necessário adequar o produto a ser apresentado dentro de uma série de diretrizes de especificação e qualificação. Vocês já se depararam com algum edital que, de alguma forma, fornecia alguma tendência ou direcionamento que fosse de encontro ou apresentasse alguma inadequação à militância de vocês enquanto mulheres pretas e periféricas?

Manu: Eu comecei a participar de processos seletivos através de editais públicos nos dois últimos anos e posso te dizer que houve uma mudança nesse sentido, sim. Há muitos deles com um recorte racial e periférico, para produções mais independentes e bem mais específicos para a nossa população. Eles têm um desenho objetivando mais os impactos sociais do que a adaptação de um produto para um edital. Criou-se um caminho inverso. Eles querem saber que tipos de resultados na sociedade você pode efetivar através do que está fazendo.

 

Por que está havendo essa mudança, na sua opinião?  

Manu: Porque a maioria dos investimentos vem de organismos internacionais. O próprio país não tem interesse em fomentar esse tipo de produção. Ainda estou me perguntando sobre o porquê. Isso é uma questão para a gente pensar. Por que há interesse dessas instituições em impacto social? Embora seja válido afirmar que há muito recorte territorial nesses editais que mencionei. Ou seja, o que você faz em seu território para mudar a vida das pessoas ao seu redor. É preciso ter um entendimento sobre o que é impacto social, que tipo de expectativas se espera disso. Ou como você estrutura um negócio ou produto com a pretensão de se obter esse impacto social.   

 

Monique: Tem uma característica também que acho interessante que é se pensar o longo prazo em relação a esses impactos. As instituições parecem querer entender que resultados podem aparecer em determinado período. Mas temos de pensar também que nem sempre esse projeto consegue suprir o que se pede por inúmeros motivos. Uma outra situação, bem problemática,  está relacionada a quem coordena projetos focados com questões culturais como rodas de conversa ou projetos desenvolvidos com o auxílio de escolas públicas por exemplo. Depois do tempo regulamentar determinado nesses editais, do período de financiamento e de todo um processo de capacitação para você gerir essas iniciativas, o que você faz depois desse término? Que alternativas sobram depois disso? Esse ciclo precisa ser melhor pensado.