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20 de janeiro de 2020

FGB participa de roda de conversa sobre intolerância religiosa

Evento ecumênico, organizado pela pastoral afro de Engenheiro Pedreira, discutiu o racismo religioso na Baixada Fluminense.

 

Texto e fotos: Lorene Maia

 

Na manhã deste sábado, 18 de janeiro, Fórum Grita Baixada esteve presente no evento "Roda de Conversa sobre Intolerância Religiosa", encontro ecumênico realizado pela Pastoral Afro da Paróquia Senhor do Bonfim, localizada nas imediações da praça Olavo Bilac, centro de Engenheiro Pedreira, Japeri.

 

O convite feito ao FGB, representado no evento pela articuladora de Território Lorene Maia, partiu de Padre Jacques Kwangala, sacerdote católico local e que também desempenhou o papel de mediador da mesa, composta ainda por Roberto Braga, o Pai Tata Luazemi, da Casa de Matriz Africana Lumy Jacarê Junçara, Carlos Eduardo, representando a religião budista, os pastores Luis Carlos, da Comunidade Evangélica Ebenézer, Ubirajara, da Igreja Universal do Reino de Deus, e Felipe Carvalho, advogado e representante do Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos, executado pelo Centro de Direitos Humanos de Nova Iguaçu.

 

O evento foi organizado em função do "Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa", a ser celebrado em 21 de janeiro, e teve como objetivo principal dialogar junto à população do município não apenas as implicações decorrentes da temática da intolerância, mas sobre como o  racismo religioso, tão presente na Baixada Fluminense e no Estado do Rio de Janeiro, é um tema que precisa ser debatido constantemente em função de seus impactos negativos e violentos, especialmente quando se trata dos praticantes das religiões de matriz africana.   

 

Como destacado por padre Jacques Kwangala, na introdução da mesa do evento, a Baixada Fluminense concentrou, em 2019, a maioria dos ataques a Casas e Terreiros, dentre outros territórios sagrados da Umbanda e do Candomblé. Entre janeiro e setembro foram 200 ataques em todo o Rio de Janeiro, de acordo com os registros da da Comissão Estadual de Combate à Intolerância Religiosa e o Racismo, coordenada pelo babalaô Ivanir dos Santos.

 

Sobre a mesa do evento:

 

As falas dos pastores Ubirajara e Luís Carlos foram conciliadoras, reconhecendo os ataques e a intolerância no que diz respeito à religião e ao Povo de Terreiro. Muito embora tenham mencionado a importância da informação como instrumento de desconstrução de preconceitos, tais como o religioso, foram questionados, num clima amistoso, por Pai Tata Luazemi - Roberto Braga, acerca da menção da Bíblia como instrumento norteador das ações e conduta de todas as religiões.  

 

Carlos Eduardo trouxe importantes informações referentes ao Budismo, religião que estuda e pratica, e acrescentou que a matriz da intolerância está relacionada aos estereótipos enraizados na sociedade, cultivados pela falta de informação e por líderes que tendenciosamente utilizam a religião para manifestar preconceitos individuais. 

 

Pai Tata Luazemi - Roberto Braga destacou que, para além dos estereótipos sociais, existe um processo de aculturação da população negra. Enfatizou, referindo-se aos membros da Igreja Universal trajados com vestes culturalmente utilizadas pelo povo de Candomblé, que a utilização daquelas roupas sem tomar conhecimento do peso cultural/religioso e simbólico para o povo de Terreiro é, por si só, um exemplo do processo de aculturação que embranquece cada vez mais os Terreiros, a medida que torna as Igrejas mais pretas.

 

Felipe Carvalho, advogado do Programa de Proteção executado pelo CDH-NI, destacou os ataques a terreiros no Rio de Janeiro e em especial no território da Baixada Fluminense, tais como o ocorrido em Duque de Caxias ao Barracão da Casa do Criador, liderado por Mãe Conceição D'Lissá. Enfatizou que programas como o de proteção a defensores, auxiliam na defesa desses líderes em constante risco.

 

A contribuição do FGB, representado por Lorene Maia, se deu na perspectiva de demonstrar como as mazelas presentes na Baixada, tais como a falta de saneamento básico, equipamentos culturais e de lazer, a precarização da educação e da mobilidade, dentre outros direitos básicos que são negados a essa população, fazem parte de um projeto político que culmina na temática da discussão. "Mais do que falar de intolerância, destacou, falar de racismo e, nesse sentido, de racismo religioso é fundamental, uma vez que não é possível negar que sendo a Baixada o território mais negro do estado do Rio de Janeiro, fica claro que todo projeto de Estado está associado ao Racismo Estrutural e ao extermínio da população pobre e negra". 

 

O evento contou ainda com apresentações culturais lideradas pelo Coral da Pastoral Afro da Igreja Universal e pela Pastoral Afro-brasileira (Paróquia Senhor do Bonfim). 

 

Dados os limites desta discussão sobre o tema da intolerância religiosa (limites estes associados ao preconceito e a aculturação), iniciativas como essa são de extrema relevância para a desconstrução da população. A realização de um evento como esse, em lembrança ao Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa (21 de janeiro), na Baixada Fluminense e, em especial em Japeri (cidade que já esteve entre as 6 mais violentas do Brasil, de acordo com o Atlas da Violência) em praça pública, aproxima e provoca a população a pensar em temáticas tão importantes como esta.