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21 de junho de 2021

Entrevista do mês: Vitor Hugo Monteiro Franco, historiador e escritor

“NOSSAS TRAJETÓRIAS NÃO SE RESUMEM À ESCRAVIDÃO”

Em conversa com o FGB, autor do livro “Escravos da Religião” diz que movimentos precisam tensionar narrativas que excluem ou menosprezam o papel das populações africanas e afro-descendentes no que se refere a História do Brasil e do Mundo.

 

A Escravidão já foi mostrada em livros, filmes e minisséries. Apesar das crueldades do genocídio terem sido relatadas sob os mais variados aspectos nessas mídias, há sempre a possibilidade de novos fatos surgirem e descortinarem enredos que não cansam de surpreender, além de promover ocasionais revisões históricas sobre o flagelo de um povo perpetuado por 400 anos.

 

Foi tarefa do historiador Vitor Hugo Monteiro Franco, morador de Duque de Caxias, e autor do recém-lançado livro “Escravos da Religião: família e comunidade na Fazenda São Bento de Iguassú (Recôncavo do Rio de Janeiro, Século XIX)”, publicado pela Editora Appris, detectar mais uma nódoa do passado colonial brasileiro.  Doutorando em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), idealizador do Podcast Atlântico Negro, além de professor do ensino básico, Franco lançou luzes sobre um grande incômodo: uma ordem religiosa católica ajudou a pavimentar processos que hoje conhecemos como parte do desenvolvimento da escravização.

 

Conhecida como a Ordem de São Bento, ela se baseia na observância dos preceitos destinados a regular a convivência social. No caso dos escravizados, que ficaram alocados  numa porção de terra batizada posteriormente de Fazenda de Iguassú, essa “convivência social” alcançou patamares surpreendentes, em que a subalternização (e a sobrevivência) daquelas pessoas estava diretamente ligada aos vínculos que deveriam estabelecer com o dogma cristão.

 

Confira a conversa a seguir.

 

Entrevista a Fabio Leon

 

Como a história dos escravizados da Ordem de São Bento chegou a seu conhecimento?

 

Não foi algo planejado. Em 2014 eu era estudante de História na UFF, e tinha ingressado há pouco tempo no grupo de pesquisa “A Cor da Baixada”, coordenado pelo professor Nielson Bezerra. A proposta do grupo era investigar a História e a Cultura negra da Baixada Fluminense, com um enfoque importante no período escravista. Certo dia, o professor Nielson me cedeu documentos digitalizados de batismo, casamento e óbito da Fazenda São Bento de Iguassú. A vida dos “Escravos da Religião” começou a saltar aos meus olhos. Eu conseguia identificar momentos chave daqueles indivíduos escravizados pela Ordem de São Bento, no século XIX. Na mesma época, na UFF, eu estava aprendendo a ter um outro olhar sobre a Escravidão: apesar da violência sistêmica, àqueles indivíduos tentaram a todo custo sobreviver e não estavam inertes a opressão. O que mais me chamava atenção era a possibilidade construir laços familiares duradouros e estáveis naquele cenário. As fontes de Iguassú eram justamente sobre isso, laços familiares e comunitários, então analisa-las era uma oportunidade de eu testar tudo aquilo que estava aprendendo. Assim, no ano seguinte, orientado pelo professor Jonis Freire, da UFF, consegui uma bolsa de iniciação científica, e desde então não parei de pesquisar sobre os “Escravos da Religião”.

 

Por que a Ordem de São Bento era tão poderosa? Ela influenciava decisões políticas da Igreja Católica?

 

Muitas vezes, falamos da Igreja Católica no singular, como se fosse um bloco monolítico. No entanto, esta instituição é extremamente complexa e plural. Sendo assim, a Ordem de São Bento é uma parte dessa grande estrutura. Os beneditinos são monges, o que significa dizer que fazem parte do clero regular, que é um seguimento do clero mais voltado para a vida reclusa e contemplativa. A Ordem, cujo patriarca é São Bento, é milenar – acredita-se que tenha se formado por volta do século V -, e ao longo do tempo se expandiu por toda Europa, adquirindo muita influência, poder e riquezas. Assim, quando chegaram ao Brasil, na esteira da chamada Expansão Marítima, eles já possuíam um capital político e econômico muito forte. A diferença é que a riqueza e o poder gerados no Novo Mundo provinham, principalmente, da exploração da mão de obra escravizada, inicialmente, indígena e, depois, de africanos e seus descendentes nas diversas fazendas e mosteiro da Ordem.

 

Historicamente, como as religiões cristãs se comportaram diante da escravidão?

 

A escravidão esteve presente em muitas sociedades, em temporalidades diversas, adotando, portanto, variadas formas. Porém, a Escravidão Moderna, aquela que se inicia no século XVI, teve como uma das suas principais bases ideológicas as diferenças religiosas. Ou seja, inicialmente, a justificativa para se escravizar outra pessoa não era baseada na “raça”, que é uma construção social do século XIX. Mas sim, no fato do indivíduo ser um não-cristão. Assim, a escravidão cumpria um papel importante na evangelização e cristianização dos povos considerados pagãos. Alguns religiosos chegaram a defender que a escravidão era um mal menor, pois partia-se do princípio que era melhor ser escravizado nas Américas, e ser convertido ao cristianismo, do que viver como pagão na África, conhecendo assim a danação eterna. Por isso, que umas das funções esperadas de um senhor de escravos era a evangelização de sua escravaria. Essa característica em propriedades da Ordem de São Bento era ainda mais acentuada. Os “Escravos da Religião” eram considerados propriedade e também um rebanho a ser cristianizado.

 

Em que medida, a subalternização dos escravizados diante de dogmas e/ou liturgias religiosas impactou você? Que elementos novos essa descoberta traz em relação ao cotidiano da escravidão?

 

Uma parte fundamental da experiência do cativeiro daquelas pessoas foi estar submetido ao poder de uma ordem religiosa, então os dogmas e liturgias faziam parte dos mecanismos de dominação criados pelos monges-senhores. No entanto, ainda me surpreende muito notar a capacidade dos escravizados de fazerem a sua própria leitura do catolicismo, e construírem relações sociais fortes baseadas nos ritos católicos. O batismo, casamento e participação em irmandades, apesar de terem um significado religioso importante, também tinham reflexos no mundo social. Então é fundamental tentar entender quem eram os padrinhos das crianças cativas batizadas, com quem os escravizados se casavam, como uma irmandade se organizava para ajudar um confrade na doença e na morte, qual era importância do culto a Nossa Senhora do Rosário para a comunidade escrava. Entendendo essas questões nós podemos compreender um pouco melhor como os escravizados liam o mundo ao seu redor. Aí é trabalho do historiador ir juntando as peças: ler os documentos, montar banco de dados, dialogar com outros trabalhos. É um “trabalho de formiguinha” e muito “artesanal”, mas eu gosto. Aprendo muito.

 

Sua pesquisa traz um elemento pouco conhecido do grande público que é o fato de que, nas fazendas pertencentes à Igreja Católica na época da escravidão, as famílias de escravizados podiam conviver conjuntamente, ao contrário das fazendas comuns em que o núcleo familiar era separado. E há também elementos peculiares em relação ao controle das relações afetivas que ocorriam nessas fazendas. Fale um pouco sobre isso.

 

Um primeiro ponto interessante e que talvez seja desconhecido do grande público, mas que já é conhecido há bastante tempo pelos historiadores, é que a família escrava foi instituição importantíssima para vida dos cativos. Em que pese o cenário adverso, ela existiu em diversas realidades no Brasil e possuíam formas variadas, sendo mais correto falar em “famílias escravas” do que “família escrava”. Dessa forma, a possibilidade de formar família não era uma exclusividade dos “Escravos da Religião”. Um segundo ponto, é pensarmos melhor no significado de “família”. Os laços familiares daquelas pessoas extrapolavam o núcleo básico – pai, mãe e filhos - e também abarcava os avós, tios, padrinhos, malungos (companheiro de viagem), confrades das irmandades religiosas. Assim, os historiadores têm encarado as formações parentais dos escravizados como instituições sociais extremamente complexas. São com esses estudos que eu dialogo ao longo do livro. As relações familiares dos “Escravos da Religião” ora convergiam para o que acontecia em outras propriedades escravistas, ora divergiam. Elas convergiam em relação ao controle dos senhores sobre sacramentar ou não as relações afetivas dos seus cativos, visto que muitas mães em Iguassú são descritas como solteiras, mesmo tendo relações estáveis; o casamento, na maior parte das vezes era realizado entre os cativos da própria fazenda; havia incentivo a formação de famílias. O que eles divergem: o caráter coletivo da propriedade escrava, você vender escravos, e assim separar famílias era mais difícil entre os “Escravos da Religião”, pois eles não eram propriedade de um monge específico, mas sim, cativos da instituição Ordem de São Bento. Então, vender um escravizado deveria passar pela anuência de toda a comunidade. Uma consequência disso, é que o futuro das relações familiares deles era um pouco mais previsível. Deste modo, pode ter partido dos próprios escravizados estabelecerem laços afetivos/familiares dentro da própria fazenda.

 

Imagina-se que para você, um historiador negro e católico, se debruçar sobre essa pesquisa tenha causado alguns impactos. Você pode comentar quais foram e como você os absorveu?

 

É um desafio enorme. A escravidão é um tema extremamente sensível para os brasileiros, pois os reflexos dela são sentidos até hoje. Ao ponto de não ter como falar sobre a formação do Brasil, sem falar dessa instituição que nos estruturou. Portanto, a período escravista não é um “tecido morto” da nossa sociedade, é uma “ferida aberta”. Estou falando de maneira geral, mas quando falamos da subjetividade das pessoas negras, isso também é verdadeiro. Nossas trajetórias, não se resumem a esse período, é claro, mas parte importante delas são perpassadas pela experiência do cativeiro. Por ser uma memória sensível, que nos remete às nossas feridas, que muitas vezes as famílias negras silenciam sobre o assunto. Meu trabalho como historiador é quebrar esses silêncios, remexer essas feridas para tentar entender como ela surgiu, como ela funcionou, o que ela diz sobre mim e nós. Ser um historiador negro católico, e estudar a vida dos “escravos da Religião” também é um desafio pois lida com outros silêncios ligadas aos vínculos da Igreja Católica com a Escravidão. Neste último ponto, o que a pesquisa me trouxesse foi ver como os próprios escravizados, a partir dos dogmas católicos, tentaram criar espaços de autonomia como as irmandades religiosas, criam laços familiares fundamentais para sua sobrevivência no cativeiro como o casamento, o compadrio. Ou seja, mesmo estando no lado mais fraco da relação, eles souberam utilizar com muita destreza os meios disponíveis para sobreviver, inclusive a religiosidade católica que lhes era imposta.

 

Você faz parte da Rede de Historiadores Negros. Que contribuições vocês esperam trazer para a historiografia brasileira? Que fatos podem ser reescritos? Vocês acreditam que pesquisas consagradas podem, por exemplo, ser revistas considerando a possibilidade de novos olhares advindos de recortes raciais mais legítimos?

 

A Rede de Historiadores Negros é uma das iniciativas que mais me encanta, e sou um entusiasta da proposta. Poder construir pautas e projetos com historiadores de todo o Brasil é uma experiência incrível. Não por acaso, escolhi lançar o livro pela nossa plataforma no youtube. Tem muitas iniciativas boas sendo construídas, como a parceria com o Portal Geledés, em que temos uma coluna chamada “Nossas Histórias”, todas as quartas. Acredito que movimentos como esse têm um potencial enorme para tensionar as diversas narrativas que excluem, ou menosprezam, o papel das populações africanas e afro-descendentes não só no que se refere a História do Brasil, mas do Mundo.

 

O número de escravizados e de atividades que eram desempenhadas por eles na Fazenda de Iguassú representa que aspectos sobre o ponto de vista desse latifúndio como uma simbologia da Escravidão?

 

A Fazenda de Iguassú era um verdadeiro complexo produtivo com centenas de escravizados que estavam alocados nas mais diversas funções. No século XIX, período que trabalho no livro, o carro-chefe da fazenda era produção de cerâmica. Mas outros escravizados estavam encarregados de produzir mantimentos como arroz, feijão, mandioca; cuidar do gado; realizar o transporte dessa produção até a cidade do Rio de Janeiro. Existiam aqueles com ofícios especializados como ferreiros, barqueiros, carpinteiros, calafates. Entre as mulheres haviam ceramistas, lavadeiras, cozinheiras, enfermeiras. Ou seja, eram o suor e o sangue desses africanos e seus descendentes que faziam esse enorme complexo funcionar.

 

O perímetro da Fazenda de Iguassú atualmente corresponderia a parte dos municípios de Duque de Caxias e Belford Roxo. São duas cidades com semelhanças e afastamentos, principalmente no aspecto econômico, já que Duque de Caxias ocupa o segundo lugar no ranking de arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços do Estado, perdendo somente para a capital. E Belford Roxo revela um histórico de abandono e desigualdade regional. Que reflexões essa fazenda traz sobre as contradições de se viver na Baixada Fluminense e também sobre seu povo?

 

Acredito que o meu trabalho, e de outros amigos do grupo de pesquisa “A cor da Baixada”, tem um papel importante de ressignificar o que é ser morador da Baixada Fluminense. Muitas das vezes, a única parte da história da região que chega a nós são os cenário de desigualdade social, abandono e violência. São questões importantes para refletir sobre o que somos, e tentar entendê-las é fundamental, mas elas não nos resumem. A partir da minha pesquisa, eu ressignifiquei minha própria relação com a Baixada. Comecei a ter um outro olhar sobre inúmeros lugares que passavam por mim desapercebidos, e até desprezados. Passava com frequência em frente a malconservada e sempre fechada Capela de Nossa Senhora do Rosário, que era a antiga sede da Iguassú, e não imaginava que ali fora um cenário importante na vida de um sem-número de pessoas escravizadas. Muito menos sabia que o bairro de São Bento fizera parte de uma grande propriedade da ordem monástica mais antiga do mundo Ocidental. Desconhecia também que os rios Iguaçu e Sarapuí, cursos d’água altamente poluídos pelos quais diariamente transito, nos anos de mil e oitocentos foram importantes vias fluviais. O local de trabalho de incontáveis escravos barqueiros foi também cenário de resistentes quilombos, que causavam uma imensa dor de cabeça às autoridades imperiais. Com o meu livro desejo que outras pessoas também consigam passar pelo mesmo processo. Conhecer a própria História é poder.

 

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